Valor Econômico: editorial - Taxa de investimento ensaia recuperação tímida e incerta

Taxa de investimento ensaia recuperação tímida e incerta

 

As perspectivas para o futuro são incertas, elevação da inflação, dos juros e a previsão de crescimento menor jogam contra

 

Quando o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou o Produto Interno Bruto (PIB) de 2021, no início do mês, chamou a atenção o avanço dos investimentos, medido pela Formação Bruta de Capital Fixo (FBCF). A taxa de investimento em relação ao PIB subiu de 16,6% em 2020, para 19,2% no ano passado, maior patamar desde 2014. De imediato, analistas e economistas ficaram animados porque a taxa de investimento elevada sinaliza mais crescimento à frente.

 

Quase um mês depois, especialistas destrincharam o resultado, relativizando a conquista, embora o número ainda seja animador. O pesquisador associado ao Instituto Brasileiro de Economia da FGV (Ibre-FGV), Gilberto Borça Jr, detalhou no artigo intitulado “Nem tudo que reluz é ouro”, publicado no Valor (22/3), os fatores que elevaram o número. Peculiaridades contábeis e fiscais do Brasil influenciam o resultado.

 

O fator mais relevante foi a internalização das plataformas de exploração e produção de petróleo e gás devido às mudanças nas regras contábeis que eram estabelecidas pelo Repetro. Para fazer jus aos benefícios fiscais, essas plataformas eram exportadas “pro forma”, continuando a operar localmente. Como explica Borça Jr., a operação inflava o saldo comercial e reduzia o consumo aparente de bens de capital e, portanto, os investimentos. Em contrapartida, havia o aumento das importações de serviços, com o aluguel dos equipamentos. Para efeito do PIB, havia maior participação das exportações e menor investimento.

 

O processo vem sendo revertido, com a internalização das plataformas que já operam no país, com o resultado prático de aumento dos investimentos e do estoque de capital da economia. Ao excluir a influência dessa operação, Borça Jr. calculou que taxa de investimento a preços correntes seria um ponto percentual menor, passando dos 19,2% para 18,2%. Ele chama a atenção também para o fator cambial, que encareceu a importação de bens de capital.

 

Mesmo assim, houve crescimento da FBCF e da taxa de investimento. Mas ainda muito distante dos 24% do PIB atingidos antes da crise da dívida externa, no início da década de 1980. Ajustando as contas dos últimos anos, Borça Jr. calcula que a taxa de investimento passa de 16,2% do PIB em 2019 para 16,3% em 2020 e para os 18,2% no ano passado. Os setores que puxaram o crescimento foram a construção e máquinas e equipamentos.

 

A recuperação da taxa de investimento também foi objeto de análise do Relatório Trimestral de Inflação do Banco Central (BC), publicado na semana passada. Box a respeito do assunto também nota a expansão da construção já no segundo semestre de 2020, quando foi incluída entre as atividades essenciais que seguiriam em operação apesar da pandemia; beneficiada pela transferência de renda para os mais vulneráveis, o que estimulou as reformas domésticas, pela queda dos juros e pela demanda de imóveis maiores em consequência da prática do home office. Em 2021, segundo Borça Jr., a construção cresceu 12,8%, a maior taxa desde 2011.

 

Já o aumento da compra de máquinas e equipamentos foi impulsionado pela elevação das commodities que estimulou a compra de caminhões e máquinas agrícolas. Estudo do Centro de Estudos de Mercado de Capitais da Fipe (Cemec-Fipe) aponta que a agricultura e a construção foram responsáveis por 2/3 do crescimento da produção de bens de capital entre 2019 e 2021, o que explica a expansão dos investimentos mesmo em um cenário macroeconômico desfavorável, analisa o coordenador do Cemec-Fipe e responsável pelo estudo, Carlos Antonio Rocca.

 

Analisando os dados de investimentos de 472 empresas de capital aberto, o Cemec-Fipe constatou que as ligadas à agricultura aumentaram em 52% os investimentos entre o fim de 2019 e o terceiro trimestre de 2021, levando em conta o valor dos ativos imobilizados e intangíveis, o dobro dos 24% registrados pela média das empresas com capital aberto como um todo.

 

As perspectivas para o futuro são incertas. No box do Relatório Trimestral da inflação, o Banco Central traçou um cenário positivo para o investimento com a contínua elevação das commodities e a apreciação cambial. Menciona também a agenda de investimentos em infraestrutura pautada pelas concessões e folga de caixa dos Estados e municípios. Por outro lado, a elevação da inflação, dos juros e a previsão de crescimento menor da economia jogam contra. As taxas altas podem enfraquecer o ímpeto da construção.

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